Caiem folhas…

Caiem folhas
regressa o fresco e
dizem que
a chuva virá

Nas ruas
as sombras chegam cedo

Tudo
parece dissolver-se
em tons plumbeos,
em sussurros dispersos,
numa poalha dissolvente,
como que a Terra
ânsiasse por dormir,
esquecer.

Haverá, sim,
esperança de dias melhores

Não hoje, contudo.

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parte comigo

foto de Clara Raposo

parte comigo

dar-te-ei
o que sou,
tudo o que sou,
porque
são longos
e solitários
os dias
que percorro
sem ti

a tua presença é
vento cálido
mas refrescante,
o teu sorriso
cura-me os medos
e da tua pele
brota a promessa
de dias plenos

agora,
diz-me
Amor:

Que
caminhos
procuras
conhecer?

Não sentes que
está na hora
de partir?

construir as cidades futuras

Com bate num texto em resposta a um post de Fernanda Gouveia a 23 de Dezembro de 2009
Nada sei de construção ou desconstrução de cidades.

Sei que também eu, novinho, sonhava com florestas. Eram florestas longínquas onde se digladiavam os ‘bons’ e os ‘maus’. Como nas pradarias da minha meninice os cow-boys batiam aos tiros as flechas dos índios. Quando a subida dos degraus da vida me deu para perguntar porquê, dei comigo a sentir que tomava partido ao contrário do que me diziam os filmes, os telejornais e quase todos os amigos.
O meu pai, homem da arte de trabalhar madeira, entre silêncios pensativos e rasgados sorrisos, ensinou-me a perguntar o porquê das coisas. Para ele, a terrível idade dos porquês, foi, imagino, um constante gozo e desafio. E ao ensinar-me a pensar o porquê das coisas, ensinou-me com a sua arte, a fazer ou, pelo menos, tentar.
Essas foram dádivas grandiosas, como são todas as coisas que os pais partilham com os filhos.
Algumas vezes, aprendi cedo, as perguntas são incómodas. Outras, aprendi mais tarde, não têm resposta senão o constante desafio de as procurar.
Foi então que um dia, tinha para aí 12 ou 13 anos, descobri que a floresta longínqua com que sonhava, seriam as matas da Guiné ou as selvas da Indochina.
Foi-me fácil admirar os vietcongs: quando apareciam, fugidios, na TV, eram pequeninos – como eu – e tinham armas quase que a brincar – como as que costumava brincar em criança. Difícil foi escolher o lado em que queria estar nas matas da Guiné, ou nas savanas de Angola, ou nas terras de Moçambique. Quem lá estava eram eles e os nossos. E via os nossos nos Natais, “Soldado nº190082-71 deseja aos seus pais, irmãos tios e primos uma Feliz Natal e um Ano Novo cheio de propriedades”, e os 10 de Junho, “Medalha da Cruz de Cristo de 1º classe atribuída ao Furriel Miliciano António” e avançava um menino, de calções para um grupo de Generais e tocava o clarim…”.
Os meus índios perdiam-se nesta batalha entre o que me era dito e os porquês que ninguém me queria responder…
Felizmente, tive o privilégio de viver a mudança, onde as coisas perguntadas, já não o eram a medo, onde todos procuravam respostas, onde o anónimo suspeitou que algo de impensável poderia fazer-se se o anónimo, saísse do anonimato, pensa-se em voz alta, procurasse parceiros. Por algum tempo cada um foi actor de um drama que se desenrola desde a idade das eras, mas apenas por breves lampejos, a multidão participa.
E lancei-me, sem reservas, na tentativa do fazer.
Outros tempos vieram, e a diáfana teia do dia-a-dia, remeteu ao anonimato as pessoas, reerguendo as elites aos seus lugares. Muitos dos que perguntavam o porquê, passaram a doutrinar “Porque sim”. Mas a maioria esqueceu que pode – e deve – perguntar o porquê…
Muitos do que queriam fazer, passaram a defender o manter, o regressar.
Eu, com muitos outros, continuámos a tentar fazer, contra-corrente, desesperámos, tentámos, falhámos, e até hoje, desesperamos, tentamos, falhamos…
E os dias decorreram entre os “dias loucos” e o “fim da história” e aqui estamos à beira do quê?
As certezas de ontem são a miséria que se espalha hoje, mas mostram-nos como xamãs os que deliberadamente nos fizeram percorrer o caminho até aqui.
É nestas altura que procuro partilhar as dádivas que recebi de meu pai: perguntar porquê e tentar fazer.
Hoje, sei que há perguntas que ainda requerem tempo…
Mas tempo é ainda o que tenho…
E continuo a nada saber de construção ou desconstrução de cidades

 

Tanta terra…

Ana

 

 

 

 

Por Ana Ribeiro
técnica de comunicação
numa autarquia
e escritora nas horas de lazer.
Ser mãe é uma pele.
Persiste no sonho
de dar ao mundo
palavras que façam
viajar para além do imediato.

 

 

Tanta terra que fui
Tanta que ainda me falta contar
Fico tonta com os grãos
Que passam anónimos e amontoados
Sem voz que não seja
A secura dos meus passos.

E são grandes os pés
A enfrentar a terra dura
Às vezes lamacenta
Poeirenta e ceguenta
Sarnenta e macilenta…
São tão grandes os meus pés
Que vão até quando ainda estão.

 Tão habituados de seguir viagem
Que me interrogo numa pausa
(será pausa esta a desta terra agora?)
Se saberei ficar
Em vez de ir e ir e ir…
Saberei ser contente…ficando?

 Tanta terra que ainda tenho no olhar
Põe a dúvida no horizonte…
Se for para parar
Há-de ser noutra serra
Um outro rio ao lado
Um oceano a sussurrar ternura.

Esta terra tão grande leva-me
Para a terra mais pequena
Que abrigo no coração
Não sei lá irei nos passos
Ou no som da ilusão
Mas vou…num qualquer segundo!

Dias que passam

publicado originalmente no FB a 12 de Outubro de 2009
Como rios subterrâneos,
tumultuosos
para se esvaírem
em lençóis plácidos,
os dias passam por mim.
Eu, em troca,
passo por eles
num desenho manuscrito
do que farei com os minutos,
tentado aceder
ao sono pacificador,
não tanto que traga paz,
mas esquecimento.

Alguém disse que
há maldição no saber.

Procuro desaber, portanto.

Tarefa hercúlea,
como desnascer
ou morrer para a vida.

Por vezes,
sinto dores de cores por reconhecer,
vejo auras de sons e cheiros
que passam
o quotidiano
dos passos e silêncios.

Tenho portos de abrigo, isso tenho.

Mas a ânsia de partir
percorre as veias do que sinto.
Sina ou fado,
filho do ferro,
neto do mar,
forasteiro na minha terra
e em busca de um país inventado.

Colecciono
lágrimas
e risos
e gestos
e partidas.

Às vezes
pergunto-me:
são os pássaros livres
na imensidão do céu?

Descreio
e volto a aprender
os passos,
as quedas,
e textura de uma folha,
um aroma da cidade.

Nada de novo debaixo das estrelas.
Os dias passam. 

A desOrdem dos dias

Assim,
claro e límpido,
o insulto
transfigurado
em suspensão.

Ter divisas
de (in)segurança,
bastão extensivel (ilegal)
à mão,
e um descontrolo
mental que faz
espancar
desalmadamente
um cidadão,
com tempo para agredir
o pai do dito,
e na presença do
filho criança
é factor de atenuação
e suspensão
– e candidatura para evoluir
na escala da hierarquia da
(In)Segurança.

As vítimas,
que se cuidem.

Há quem diga,
que o cowboy
tem memória de elefante.

Os comparsas,
escudados
nos cráchas
e na voz tonitruante
da Lei & Ordem,
por certo rejubilam.

Suspensa que está
a pena,
a (des)Ordem
segue dentro de momentos

Leio a vida depois dela me escrever

Ana
Por Ana Ribeiro
técnica de comunicação numa autarquia
e escritora nas horas de lazer.
Ser mãe é uma pele.
Persiste no sonho
de dar ao mundo
palavras que
façam viajar
para além do imediato.

 

 

Há quem circule pela previsão das letras
quem sobreviva por saber de letras como é a realidade.
A mim
a realidade leva, empurra, atropela, esmaga e eleva
antes de qualquer letra me explicar o porquê.
Os textos não me amam
porque sou eu que neles cavalgo
depois da vida me cavalgar.
Não há aviso meteorológico:
irrompe o universo sobre
como aguaceiro açoitante, um vendaval ou tufão.
Não há um instante para respirar fundo,
a voz a pedir para parar não tem tempo
ou sequer para pensar onde estou e em quem sou.
Sou marioneta aparente
senhora só do momento em que reajo e falo
com a ilustração assimilada
porque o saber lido não praticado jaz
em algum buraco do passado esquecido
ou em gaveta
de esforço para aflorar a boca.
Eu não sou estação de futuros
somente paragens sobre o passado que acabou de passar.
Sou tão par em signo
que a avalanche de letras me vê como igual
escrevendo-me…e quando leio
já fui escrita.
Sustenho o pasmo e a respiração
por compreender em cada dia
que ao perceber é porque já fui, passou, correu.

Os Meus Livros

Raymond
de Raymond Maxwell
O título é da responsabilidade da Arca,
bem com  a tradução.

 

Não encontrarás os meus livros favoritos
em livrarias. Eles apenas vivem
em bibliotecas atravancadas
em parteleiras poeirentas
e talvez em museus velhos,
há muitos tempo abandonados,
não os novos, glamourosos,
onde a elite se encontra para almoçar,
e as pessoas fazem fila
por um bilhete e uma remota chance
de ver celebridades.