70 Anos

Como água que corre no rio indomável da vida
Como pedra que rola pela encosta e deixou marcas
Como pássaro que levanta vôo e vê mais longe
Como fogo que incendeia e se extingue em brasa
Como espada em fúria na carne cravada
Como tudo e como nada

Como o coração que se dá sem limites
Como menino que acordou em estranha terra
Como soldado infeliz em nefanda guerra
Como bandeira deixada na beira da estrada
Como da morte o grito da vida se elevou na batalha
Como tudo e como nada

Como às vezes acordar e desejar partir
Como olhar a luz e caminhar pra nascente
Como gritar contra o corpo que parece ceder
Como sentir cá dentro uma força maior
Como escrever o poema no corpo que passa
Como sentir quando se cai que alguém nos abraça

Como recordar a terra que de nós se esqueceu
Como amar quem se esquece e está sempre ausente
Como acalentar o que renasce e sepultar quem fenece
Como deixar escrito os secretos pensamentos
Como beber no total todos os momentos
Como viver no outono a desejada primavera
Como olhar a neblina e divisar o infinito
Como viver o que escrevemos e não o que estava escrito

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